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domingo, 6 de maio de 2012

Dia da Mãe


Mãe Negra

A mãe negra embala o filho.
Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.
Canta, canta para o céu
Tão estrelado e festivo.
É para o céu que ela canta,
Que o céu
Às vezes também é negro.
No céu
Tão estrelado e festivo
Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
—Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.
A mãe negra não tem casa
Nem carinhos de ninguém...
A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços...
Mas olha o céu estrelado
E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Baltasar Lopes

Selo Postal no valor 60$00 com a imagem de Baltasar Lopes

" (...) linguista, filólogo, romancista, ensaísta e poeta (...) um dos maiores vultos intelectuais do espaço do Português (...) doutor Honoris Causa pela Faculdade de Letras de Lisboa (...)"
(in Entrevista de Fernando Assis Pacheco com adaptação de Liliane Reis)

Baltasar Lopes da Silva, nascido a 23 de Abril de 1907 na aldeia de Caleijão em São Nicolau e falecido a 28 de Maio de 1989 em Lisboa, foi e é uma das maiores figuras a nível da literatura cabo-verdiana e também referência de professor, pelo que o dia do seu nascimento foi dedicado ao professor, figura na qual Baltasar se caracterizava.

Desde sempre foi um excelente aluno, tendo feito inicialmente o seminário em São Nicolau e depois continuado os seus estudos secundários em São Vicente. Seguiu para Lisboa com o intuito de terminar o secundário e ingressar na formação superior, porém devido ao atraso da sua chegada só pôde inscrever-se em Letras, um caminho oposto o qual sentia vocação, que era medicina.  Ingressou no curso de direito, todavia não lhe agradava a política da época pois a justiça estava ao mercê do Ministério da Justiça e o Ministério do Ultramar, pelo que decidiu inscrever-se no curso de Filologia Românica, tendo ficado como aluno voluntário em direito e aluno ordinário nem letras e, terminado o curso de letras dois anos após término do curso de direito.

"Auscultei-me, auscultei-me, até que um dia cheguei à conclusão: eu gosto é de ensinar. Ser professor." (Baltasar Lopes in Entrevista de Fernando Assis Pacheco)

Imagem Baltasar Lopes

Após término dos seus estudos, Baltasar regressou a Cabo Verde, onde exerceu o cargo de professor no Liceu Gil Eanes em São Vicente, tendo sido nomeado uns anos mais tarde Reitor deste estabelecimento de ensino. Exerceu as profissões de professor e advogado, tendo defendido casos de heranças e entre outros que se destacavam na época do Capitão Ambrósio. Devido a problemas de saúde, doença cerebrovascular, este teve de viajar para Lisboa, tendo falecido em 1989.

" Tenho um capital: os milhares de ex-alunos."
(Baltasar Lopes in Entrevista de Fernando Assis Pacheco)


Ainda em vida, em 1936 Baltasar Lopes juntamente com Manuel Lopes, Manuel Ferreira, António Aurélio Gonçalves, Francisco José Tenreiro, Jorge Barbosa e Daniel Filipe fundaram a Revista Claridade, um dos maiores movimentos da Literatura Cabo-verdiana. Claridade era uma revista de poemas, ensaios e contos que denunciavam os problemas que o país sofria na altura, sendo estas a seca, fome, emigração e entre outros. Esta atitude de revelar os problemas não se revelava somente nas revistas mas também em suas obras literárias, sendo de destaque o romance Chiquinho, seu primeiro livro e único romance publicado em 1947.

Como estudioso e linguista, Baltasar fez estudos do crioulo, o ensaio O dialecto crioulo de Cabo Verde(1957), organizou uma Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea (1961). Também escreveu textos polémicos, sendo este a critica à visão com que o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre ficou do arquipélago, Cabo Verde visto por Gilberto Freyre (1956).

No que concerne à figura de contista e poeta, publicou os contos Os trabalhos e os dias (1987) e a colectânea de poemas Cântico da manhã futura (1986). Como poeta Baltasar vestia-se na pele de outra personagem, auto-denominava-se de Osvaldo Alcântara (pseudónimo).

Baltasar Lopes, símbolo de Cabo Verde, não só a nível da literatura, mas principalmente a nível do ser cabo-verdiano. Homem defensor da  cultura cabo-verdiana, um típico cabo-verdiano lutador, dinâmico e que procura melhorar as condições deste pequeno arquipélago no meio do atlântico.

"Pela simplicidade dele, testemunha a seguinte história contada em Santo antão" Baltazar Lopes casou com a teresinha de Ribeira das patas em Santo Antão, e trabalhou no Porto Novo,e certo dia ele vinha da Rª das Patas para o Porto Novo um homem com muitas cargas disse-lhe companheiro ajuda-me a levar esse feixe de palhas, e o Baltasar pegou do feixe e levou-o até a entrada do Porto Novo, e quando entregou o feixe ao homem este agradeceu-lhe e perguntou-lhe o nome, e o Baltasar respondeu-lhe Baltazar Lopes da Silva . E o homem disse meu Deus como é possível, pedi ajuda ao Sr juíz, mas que simplicidade! " (Conceição Reis)

Nota de 500 ECV com imagem de Baltasar Lopes (retirado de circulação)


Fontes:

Entrevista de Fernando Assis Pacheco a Baltasar Lopes


Texto de Liliane Reis

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A SERENATA


Vestida de gemidos de bordão,
lancinâncias de violino,
na noite parada
vem descendo a seresta.

Sumiu-se a cidade barulhenta
inimiga das crianças e dos poetas.

Uma voz canta sentimentalmente um samba.
                   Aquele aperto de mão
                   não foi adeus!
Os cavaquinhos desmaiam de puro sentimento,
a cidade morreu lá longe,
e a lua vem surgindo cor de prata.
                   Nessa história de amor todos são iguais,
                   até o rei volta sua palavra atrás...
O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia.
                   É hora que os poetas escolheram
                   para a procura dos seus mundos perdidos...
Amanhã a cidade virá novamente
inimiga dos poetas.
Mas agora ela dorme,
ela não sabe que os poetas falam com Nossenhor,
com a lua e as estrelas,
nesta hora tão lírica...
Menina romântica, irmã
das crianças e dos poetas...
A tua janela, florida de esperanças,
é um mistério que a cidade não entende.
Passa a serenata.
Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
ficam os gemidos do violão e do cavaquinho,
vozes crioulas neste noturno brasileiro
de Cabo Verde.

Osvaldo de Alcântara
(pseudónimo poético de Baltazar Lopes da Silva)

sábado, 7 de abril de 2012

Nhô Ambrose - Mindelo


Foto Arquivo Histórico Nacional (AHN), Praia
Capitão Ambrósio

1                                                      2

Bandeira                                           Mãos erguidas
Negra bandeira                                  Em força, duras, erguidas
Bandeira negra da fome.                   Pés marcando a revolta
Em mãos famintas erguidas              O povo marcha na rua.
Guiando os passos guiando
Nos olhos livres voando                     Vai na frente o Ambrósio
Voando livre e luzindo                       Mulato Ambrósio guiando
Inquieta e livre luzindo                      Leva nas mãos a bandeira.
Luzindo a negra bandeira                  Pesada e fria é a noite
Clara bandeira da fome.                    Injusta e amarga é a fome
                                                          Mas vai na frente o Ambrósio
                                                            .....................................

3                                                      5

Foi um minuto.                                 .....................................
Veio o vento e passou.
Mulato ambrósio foi preso                  Capitão Ambrósio chegou!
Julgado e preso o Ambrósio               Chegou o Ambrósio chegou!
Preso para longe o Ambrósio
Mandado para longe o Ambrósio.
Longe do povo o Ambrósio.
Mas a banceira ficou.
Morreu e foi enterrado
Mas a bandeira ficou

"Capitão Ambrósio", in Ladeira Grande. Antologia Poética, 1993

Mais no Blog "A Esquina do Tempo".

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia da Mulher Cabo-verdiana - 27 de Março

Autoria da pintura: Maria Alice Fernandes

CABO VERDE FEMININO 
Se pudesse escrever 
Um poema de amor 
E no poema de amor 
Cantar o meu amor por ti…. 
Mulher de Cabo Verde 
Ida que com dor 
Ou com tristeza 
Ou simplesmente sem alegria 
Cantaria o meu amor por ti, 
Mulher de Cabo Verde 
Se pudesse escrever 
Com alegria e moraza 
Com morna e coladeira 
Com batuque e funana 
Cantaria o meu amor por ti 
Com cola e contra-dança 
Tu mulher de cabo verde 
Com tabanca e festivais 
Escreveria o meu poema por ti 
E no meu poema, 
No meu poema, no poema 
Que não sei escrever, 
Que nunca poderei escrever…. 
Se pudesse cantar, cantar a tua beleza 
Tu mulher crioula, tu mulher Cabo Verdeana 
Ai se eu fosse poeta….  
Tu mulher de Santo Antão* 
Tu crioula bonita e exótica 
Tu mulher de montes e vales 
Te cantaria no meu poema 
Se soubese escrever 
Ai se eu fosse poeta… 
Escreveria o meu poema por ti!  
Se eu fosse poeta 
E escrever soubesse e pudesse 
Te cantava e escrevia… 
Escrevia um poema onde 
Tu mulher citadina 
Tu mulher que passas as noites 
As belas noites de luar 
Ou as belas noites de luzes eléctricas acesas 
A volta da praça, num vira e vira 
Pondo conversas em dia e matando saudades 
Saudades das cumadres que não vês 
Desde ontem a noite 
Falando conversas sem sentido 
Ou falando dos males ditos e ouvidos 
Conversas sobre namorados e namoros 
Namoros tradicionais ou modernos 
Conversas que encantam e destraiem 
Tu mulher de Mindelo 
Tu São-Vicentina cosmopolita 
Tu mulher da cidade de Mindelo 
Como te cantaria, se soubesse ser poeta!  
Se eu pudesse escrever 
E fazer um poema 
Te escrevia no meu poema 
Tu mulher de Boavista 
Tu que entre dunas e areias 
Imaginas e sonhas o amor 
Do marinheiro encalhado 
Que jamais voltou 
Tu bela e mui desejada crioula!  
E tu Mulher do aeroporto 
Salgada morena crioula 
Doce contraste do sabor 
Ai se eu fosse poeta 
Te veria antes que quaisquer turistas 
E te pintava na minha tela 
Em palavras que não sei escrever 
Tu do Sal a minha crioula 
Ai se eu fosse poeta... 
Crioula e morena 
Filhas do grande Chiquinho, 
Poeta de nome e fama 
Como dizer porque não vos escrevo 
No poema que não faço 
Se vos mui vezes fostes 
Sem duvidas inspiração 
Nas noites e nos dias inspiradores 
Dos muitos poetas que a ilha já teve 
Tu mulher de São Nicolau 
Como não cantaria o teu amor 
Se eu fosse poeta? 
Ai se eu fosse poeta e soubesse escrever… 
Se soubesse escrever, 
Ai se soubesse escrever 
Maio, minha querida ilha esquecida 
Tua mulher cantava sem duvidas 
E fazia dela o meu amor 
Morabeza e formosura 
Pequena ilha, mulheres bonitas 
Ai se eu fosse poeta… 
Tu Santiago, tua mulher Badia 
Formosa esquia e trabalhadora 
Batucadeira e mãe, lavadeira 
E peixeira, mulher de vida dura 
No campo a enchada 
Na Praia o balaio e a rabidança 
Se pudesse cantar e escrever 
Um hino te faria 
Tu Badia do meu coração 
Tu meu amor de sempre, 
Tu minha mulher badia querida 
Como te cantaria se eu fosse poeta 
Ai se eu fosse poeta... 
E tu mulher de Fogo 
E tu mulher de Brava 
Escaldantes mulheres bonitas 
Dum lado o Vulcão e do outro o Cismo 
Loucuras não vos faltam 
Mulheres crioulas e doces e quentes 
Mas como escrever 
Se não sei e nem sou poeta! 
Se eu fosse poeta 
Ai se eu fosse poeta… 
Escreveria, podes crer que escrevia 
Ai se eu fosse poeta… 
Tu mulher que não existes 
Que nunca exististe 
Tu mulher de Santa Luzia 
Tu que és a minha imaginação 
Formosa negra e morena 
Sereia dos cantos e das lendas 
Nas noites de luar 
Coroada em ouro 
E banhada no azul celeste 
Tu mulher que não existe 
Tu mulher da ilha despovoada 
Santa Luzia, mulher da minha imaginação 
Ai se eu fosse poeta, te escreveria e cantaria 
Tu da desértica ilha despovoada! 
Ai se eu fosse poeta…

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia 21 de Março - Dia da Poesia



 Canção ao Mar - Mar Eterno 
Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas oh! Mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar
Que mal te fiz oh mar, oh mar 
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar 
Quebrando as ondas tuas 
De encontro às rochas nuas
Suspende a zanga um momento e escuta 
A voz do meu sofrimento na luta 
Que o amor ascende em meu peito desfeito 
De tanto amar e penar, oh mar
Que até parece oh mar, oh mar 
Um coração a arfar, a arfar 
Em ondas pelas fráguas 
Quebrando as suas mágoas
Dá-me notícias do meu amor 
Que um dia os ventos do céu, oh dor 
Os seus abraços furiosos, levaram 
Os seus sorrisos invejosos roubaram
Não mais voltou ao lar, ao lar 
Não mais o vi, oh mar 
Mar fria sepultura 
Desta minha alma escura
Roubaste-me a luz querida do amor 
E me deixaste sem vida no horror 
Oh alma da tempestade amansa Não me leves a saudade e a esperança
Que esta saudade é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel 
É como a doce mãe 
Suavíssima e cruel 
Nas mágoas desta aflição que agita 
Meu infeliz coração, bendita! 
Bendita seja a esperança que ainda 
Lá me promete a bonança tão linda

Eugénio Tavares